O brasileiro hoje morre de maneira diferente do que h 30 anos - e precisa agora tentar modificar o padro atual da morte no pas para no ter que pagar um preo alto demais ao sistema de sade, tanto pblico como privado, nas prximas dcadas.

Passou a fase em que o grosso das mortes no pas ocorria devido s chamadas doenas da pobreza, como infeces que causam diarria em crianas.

A tendncia que se estabeleceu mostra que problemas como os infartos e cncer, erroneamente considerados "doenas de Primeiro Mundo", so responsveis por um nmero cada vez maior de mortes.

Mas os contrastes do Brasil fizeram surgir um novo padro, que no  tpico nem de Primeiro Mundo: a exploso das mortes violentas.

Acidentes de trnsito matam muito, graas  convivncia do Brasil civilizado e incivilizado: h bastante gente com dinheiro para comprar carros, mas no h respeito s leis bsicas de trnsito.

O principal responsvel pelo aumento nas mortes violentas so os homicdios, em que os contrastes sociais so causa bsica.

O final da dcada passada selou a tendncia: mais pessoas foram assassinadas no Estado de So Paulo do que mortas em acidentes de trnsito.

Os dados fazem parte do estudo "Mudanas no perfil de sade da populao brasileira", realizado por pesquisadores do Nupens/USP (Ncleo de Pesquisas Epidemiolgicas em Nutrio e Sade), ainda no publicada.

De acordo com o estudo,  necessrio investir agora, antes que seja tarde, na preveno de doenas crnicas, como o cncer.

A populao do Brasil ainda  jovem, mas taxas de natalidade decrescentes e os avanos mdicos esto fazendo surgir uma proporo de idosos cada vez maior.

Se programas de preveno no atingirem agora os adultos e idosos do ano 2020, a conta para tratar todos os infartos, derrames e tumores poder ser alta demais.

 muito mais barato investir em campanhas de alimentao saudvel, que visam reduzir o colesterol no sangue, do que pagar por pontos de safena. O mesmo vale para programas contra o tabagismo, contra o lcool e a obesidade, todos fatores de risco reconhecidos para diversas doenas.

O "progresso" de ter as doenas crnicas assumindo importncia crescente pode ser enganoso. Por trs dele, h algo que distancia o Brasil do Primeiro Mundo.

"As doenas crnicas aqui matam mais, e mais precocemente", diz Carlos Augusto Monteiro, professor titular de nutrio da Faculdade de Sade Pblica e coordenador do estudo no Nupens.

Um brasileiro de 60 anos, por exemplo, tem seis vezes mais chance de morrer se sofrer um derrame do que um americano. Infartos causam quase cinco vezes mais mortes em brasileiras da mesma idade do que e argentinas.

Parte da culpa  sem dvida do atendimento mdico, mais precrio aqui. Mas h uma outra explicao, desmistificadora.

O fato de os pases ricos terem controlado as doenas infecciosas fez as crnicas, de tratamento mais difcil, assumirem importncia maior. Isso d a impresso de que os fatores de risco das doenas crnicas esto associados apenas ao estilo de vida existente no Primeiro Mundo.

Na verdade, os pobres so os que correm mais riscos de desenvolverem essas doenas - assim como as infecciosas.

A obesidade, por exemplo, se disseminou mais rapidamente entre mulheres brasileiras com renda mensal entre US$ 30 e US$ 90 do que entre as que tm renda maior.

Uma pesquisa realizada em Porto Alegre, divulgada pelo Banco Mundial, mostra que pessoas sem escolaridade (um indicador que sugere pobreza) tm cerca de cinco vezes mais chance de terem presso arterial elevada, o que predispe a infartos, do que pessoas com instruo superior.

Da mesma maneira, analfabetos so mais propensos a fumar, consumir lcool, viver de maneira sedentria e serem obesos.

A baixa instruo implica menor esclarecimento mdico e menos cuidado com a sade. Algo que programas de preveno - que comprovadamente apresentam excelente relao custo/benefcio - devem atacar de frente.
